"E solidão é não precisar. Não precisar deixa um homem muito só, todo só. Ah, precisar não isola a pessoa, a coisa precisa da coisa: (...)seu destino é juntar-se como gotas de mercúrio a outras gotas de mercúrio, mesmo que, como cada gota de mercúrio, ele tenha em si próprio uma existência toda completa e redonda."
Clarice Lispector - Paixão Segundo G.H.
Ando descolado dos meus instintos, dos meus sentidos. Minha primitividade está anestesiada pela sofisticada alienação do mundo. Eu não me sou mais - e corro o riso de entender que, na verdade, nunca me fui. Opero o caminhar imerso em pensamentos desconexos. Enjaulado no pensamento de pensamento. Preciso pensar com o olhar. Sentir os pés que tocam a superfície árida da cidade. Respirar e respirar e respirar. Não pela banal sobrevivencia. Mas pela vivência.
Sempre começo do meio. O meio me é muito mais do que o começo. É no meio que sinto o que há tempos havia começado. Mas eu, de existência distraída e comedida, só percebo o que já é no instante de sua morte. Apego-me, então, aos seus últimos milésimos de vida e busco toda a intensidade perdida pra tomá-la no gole só. Matá-la brutalmente antes que morra sem que eu a tenha percebido.
Esse blog é blog de morte. Mato cada fato pra que só sobre o que me motiva. A entrelinha. O "it", pra falar de Clarice.
Mas hoje eu não mato nada. Estou sem coragem. Na verdade hoje eu dou vida. Dou vida a solidão compartilhada. Estava só, completamente só. Minha existência toda compactada num pacote escondido. A minha volta, 29.999 pessoas aglomeradas. Todas iguais a mim. Com seus pacotinhos exitenciais guardados. O que valia ali não era a existência única, mas o coletivo que dividia aquele momento. Cantavamos unidos, desafinados, desajeitados; verdadeiros.
"I´ll laugh untill my head comes off!!" era o sentimento ao fim do show. Uma alegria tão foda que droga nenhuma poderia ativar. Só entende que já desprendeu sua existência por alguns momentos. Todo invólucro ausente. Apenas o imaterial que te define ali exposto. Recebendo interferências que reverberam e tocam células virgens. Arrepio, choro, explosão.
Tudo ao mesmo tempo.
- "For a minute there, I lost myself, I lost myself" era a estratégia e o hino.
A vida que confronta a própria vida. Nesses momentos de ruptura algo se desprende e caminha em direção ao infinito. Mas tal desprendimento não vem da ausência. Muito pelo contrário. Vem pelo contato. Pelo "it" que opera na alma.Um fissura que rompe com o conhecido.
Um fato novo? Não, um ato novo! Uma nova ação. Ação de morte. Morre-se. Pra sempre. E sempre, pruma vida nova.